O CLAMOR DE UMA GERAÇÃO







“Ora, João usava uma veste de pelos de camelo, e um cinto de couro em torno de seus lombos; e alimentava-se de gafanhotos e mel silvestre. Então iam ter com ele os de Jerusalém, de toda a Judéia, e de toda a circunvizinhança do Jordão, e eram por ele batizados no rio Jordão, confessando os seus pecados.” Mt 3:5,6

É muito comum destacarmos João Batista, seu fervor, sua obediência e dedicação no ministério, também damos ênfase em sua mensagem de arrependimento, batismo e principalmente, a ocasião do batismo do próprio Cristo. Meditando estes dias nestas passagens algo saltou em meus olhos e logo uma pergunta veio à mente: Que tipo de gente sai do conforto de sua casa até ao deserto para ouvir um homem com cara fechada, roupa esquisita, uma figura atípica que em nossos dias seria tachado como “maluco”. Em respostas aos religiosos da época que o indagava acerca de sua identidade João responde: “Eu sou a voz que clama no deserto”, fazendo referencia à profecia de Isaías (Lc 3:4-6, Jo 1:23). Não há indícios de que João operou algum milagre, não curou ninguém, não dá de comer pra multidão, não prega mensagem de auto-ajuda nem fica aliviando a coceira dos ouvidos da platéia? E o pior, suas mensagens eram confrontadoras e repetitivas!

Mas a resposta fica no ar. Qual o perfil do publico de João Batista? Para saber o que motivava aquela multidão acho importante primeiro compreender quem foi João Batista e qual era sua mensagem:

I - QUEM FOI JOÃO BATISTA?
Por volta de 700-650 a.C. Isaías profetizou que antes do Messias chegar Deus enviaria seu precursor a fim de preparar seu caminho. Por volta de 28-29 d.C surge no deserto a figura de João Batista, um filho de sacerdote que abriu mão de seu ministério sacerdotal em Jerusalém, no templo, para ser um profeta no deserto, ou, como ele mesmo diz; “A voz que clama no deserto”. E lá no deserto João recebe o chamado de Deus para pregar o batismo de arrependimento a fim de preparar o povo de Israel para a chegada do Messias e do Reino dos céus.

À semelhança do profeta Elias, João Batista vestia-se com uma roupa feita de pelos de camelo cingido com uma cinta de couro, comia gafanhoto e mel. Jesus disse que João foi o último e maior de todos os profetas, por fim, João foi preso e morto a mando do rei Herodes, da Galiléia (Is 40:3, Lc 1:80; 3:2, 2 Rs 1:8 e Mc 1:6; 6:14-29, Mt 11:13-14)

João Batista foi preso na fortaleza de Machaerus, nas colinas desertas ao leste do mar Morto, sua prisão liberou o ministério de Jesus, aqui já começamos a aprender algumas lições importantes sobre João Batista, Jesus nunca pode aparecer enquanto nós estivermos em cena, precisamos aprisionar nosso ego, mas não é em qualquer lugar, deve ser próximo ao mar Morto, ou melhor, prender nosso ego em uma vida de morte, e morte de Cruz. Quando nosso estilo de vida não desafia quem esta ao nosso lado, quando não causamos constrangimento nas pessoas a fim de mudarem de vida, na verdade, é porque estamos aparecendo mais do que a Cristo, precisamos tirar os holofotes de sobre nós, Que Ele cresça e que nós diminuamos.

É bem verdade que João enquanto preso chegou a duvidar da identidade de Jesus, aliás, creio ser até plausível que qualquer homem de Deus diante do sofrimento e da dor possa entrar em crises, porém, creio que havia outra frustração no coração de João Batista, ele queria ver o messias em ação, queria ver o Reino, enfim, queria ver Jesus batizando com o Espírito Santo e com fogo, queria contemplar aquilo que tinha profetizado, mas não o podia ver, daí se frustrou porque Deus o privara disto. Os verdadeiros homens de Deus muitas vezes não conseguem enxergar a dimensão em que suas vidas de obediência alcançam em Deus, a grande maioria só saberão os resultados de seus frutos apenas no tribunal de Cristo, alguns ainda, morrem com aquela sensação de que fracassaram, porém, suas vidas e obras continuam inspirando homens e mulheres no mundo inteiro, suas mensagens continuam inflamando corações e arregimentando para o Senhor um grande exército.

A influência de João Batista foi tão grande que 30 anos mais tarde Paulo encontra alguns de seus discípulos até na Grécia (At 19:1-7), e não somente isto, 60 anos mais tarde o Apóstolo João teve a necessidade de enfatizar a superioridade de Jesus em seu evangelho (Jo 1:19-27; 3:30), sendo que até os dias de hoje há uma corrente herética que dá a João Batista, e não a Jesus, o status de Messias, estes são chamados de Joanitas.

II - A MENSAGEM DE JOÃO BATISTA
Um dos segredos de tanto sucesso de atrair tanta gente estava contida não só na vida excêntrica que João Batista levava, mas também em sua mensagem. É necessário destacar que João era diferente dos pregadores da época, e claro, sua mensagem também o era, na verdade a mensagem de João Batista era o resultado de seu estilo de vida em consagração. Nosso estilo de vida tem que condizer com nossa mensagem e nossa mensagem deve condizer com aquilo que vivemos, senão, nunca teremos autoridade naquilo que falamos e vivemos, cairemos sempre em descrédito por viver uma vida de hipocrisia.

Outra coisa, tudo indica que João foi quem escolheu viver no deserto, e foi lá que veio a ele a palavra do Senhor (Lc 3:2). Mas por que o deserto? Porque não Jerusalém que era centro político e religioso da época. Ora, João Batista era filho de um sacerdote, e como tal, cresceu vendo o corrupto sistema religioso e político de Israel, creio que tudo aquilo o enojava desde cedo, O amor e fervor pela verdade trouxe-lhe ao coração a necessidade de separação total desta corruptela, e separação inclui perca de posição, honra, reputação, tradição, prestígio e tudo mais. O zelo pela Palavra de Deus queimava em seu peito e inclinava-o para longe daquele lugar, longe da barganha da elite, da pompa dos nobres e do estado ineficaz e podre da religiosidade, isto tudo certamente lhe causava náuseas, o deserto então chega como uma resposta imediata para solucionar aquela sensação angustiante do sacerdote/profeta, o desejo de sair daquele ambiente fez enxergar o deserto como um verdadeiro Oásis. Se não chegamos a este nível de visão do quão podre está o sistema religioso evangélico brasileiro, se não urge em nossa garganta o desejo de gritar Basta! Logo, precisamos clamar dia e noite ate produzirmos frutos de um autêntico e profundo arrependimento.

Longe de Jerusalém sua mensagem poderia ser afinada com o desejo do coração de Deus, no deserto ele aprendeu a ouvir a voz do Espírito Santo sem interferências, logo, podia transmitir com fidelidade e coragem a voz de Deus sem o temor dos homens, afinal, João Batista não tinha amigos, e os que tinha já não o eram mais. Não é possível entregar ao povo algo da parte de Deus ser passar pela solidão e silêncio do deserto, lá abandonamos nossa religiosidade, reputação, histórico, status, conforto, prazeres, sonhos, projetos, sucesso, enfim, entregamos tudo aquilo que é nosso, que é inútil, para receber sua vida, o deserto é melhor lugar para se encontrar com Deus, é o único lugar que podemos realmente conhecer o coração de Deus. De Abraão, Moisés, Davi até Jesus, todos aprenderam o valor do deserto.

Assim como os profetas do passado se utilizavam de algum simbolismo para transmitir suas mensagens creio que o deserto foi o símbolo usado por João Batista ao transmitir sua mensagem inicial, creio que esta mensagem era: “Precisamos voltar para o deserto, deixar esta terra prometida porque não somos dignos dela, tornamo-nos iguais ou pior do que nossos antepassados que não entraram nesta terra, precisamos ser tratados por Deus novamente porque Seu Reino é vindo e aqueles que dentre vós não aceitarem o tratamento de Deus não poderão ver o reino.” A semelhança do povo que não entrou em Canaã nos tempos de Moisés, assim uma grande multidão não pode entrar no reino de Deus na época de Jesus, antes, pereceram não no deserto, mas na própria Canaã. Também hoje uma grande multidão de crentes perecerão sem poder participar do reino de Cristo por mil anos aqui na terra, antes, serão lançados nas trevas exteriores, ali haverá pranto e ranger de dentes. São salvos, mas não se prepararam, portanto, não possuirão a terra.

O esforço de Moisés e João Batista era o mesmo, preparar o povo para entrar no novo reino. Para entrar em Canaã era necessário guardar os mandamentos de Deus, mas para entrar no Reino é necessário arrependimento, o povo que entrou em Canaã teve que atravessar o Jordão, pra entrar no Reino era necessário entrar no Jordão, assim como Moisés preparou o caminho para Josué entrar em Canaã, João Batista preparou o caminho para Jesus introduzir um povo ao Reino, Moisés viu Canaã mais não entrou, João Batista viu o Reino, mas não entrou. Moisés foi um profeta do Senhor mas não sacerdote, João foi sacerdote e profeta, o precursor de Moisés foi quem introduziu o povo em Canaã, O precursor de João Batista inaugurou o Reino dos céus, Josué introduziu o povo em Canaã, Jesus trouxe o reino dos Céus. (O nome Jesus em hebraico tem a mesma forma que o nome Josué, porém, de modo abreviado)

Enfim, João Batista ia adiante dele no espírito e poder de Elias, para converter os corações dos pais aos filhos, e os rebeldes à prudência dos justos, a fim de preparar para o Senhor um povo apercebido, sua mensagem era um chamado ao arrependimento, ele não pregava uma religião, tampouco dogmas, ele pregava a chamada do Reino dos céus, reino este que fazia tremer o coração de Herodes, João clamava para demonstração do amor não só em palavras (Lc 3:11), ele expôs a ganância (Lc 3:12-13) e a manipulação de pessoas por parte daqueles que detém o poder (Lc 3:14), criticou a auto-justificação (Mt 3:9) e por fim, anunciou o juízo aos que não se arrependerem (Mt 3:-12).

III - O CLAMOR DE UMA GERAÇÃO
Mas por que Herodes prendeu João? Ora havia uma multidão indignada com o sistema – o sistema político e religioso da época – e esta multidão inflamada pelas mensagens de João anunciando a chegada de um reino e denunciando o rei Herodes como adultero poderia causar uma revolta em Israel, isto custaria o trono e a cabeça do rei Herodes (Lc 3:19-20). Semelhantemente, hoje, aqueles que se assentam na cadeira de Moisés cujas vidas são recheadas de luxúria, fama, acordos políticos, tráfico de influencia, negociatas, maquinações espúrias, e tudo isto em nome de Deus só pra manterem o domínio sobre o povão, estes temem os profetas do Senhor porque temem perder seus “tronos”, a solução deles é simples: “...cala a boca deste profeta, ta falando demais! quem ele pensa que é para afrontar o “ungido” rei da igreja, ops! de Israel.
João foi preso e morto pela elite política (Mc 6:14-29), Jesus foi preso e morto nas mãos da elite religiosa. Tanto os políticos quantos os religiosos usaram as massas para perpetrarem seus planos, não é diferente em nosso dias, quantos não são perseguidos, presos, calados pela mesma elite, tudo isto para que possam manter o poder.

João não estava sozinho nesta peleja porque havia uma multidão que concordava com sua mensagem, eles amavam João Batista não porque ele falava bem, ou tratava seus ouvintes com honrarias, pelo contrario, amavam porque ouviam a voz de Deus. Há um clamor nos dias de hoje por ouvir a voz de Deus, os homens estão clamando: VOZ DE DEUS E NÃO DE HOMENS!

Graças a Deus que em nossos dias tem levantando uma multidão que como João Batista queima em seus corações um clamor por mudança. Já podemos ouvir seus gritos pelos desertos clamando Basta! Ainda há homens de Deus que abriram mão da religiosidade evangélica brasileira, que tem nojo desta teologia em que homens pecadores apontam o dedo à Deus e dizem: “eu quero meus direitos”, homens e mulheres vivendo o evangelho da cruz cuja voz ecoa pelos desertos denunciando o legalismo dos déspotas religiosos, denunciando o evangelho da prosperidade que ensina a homens cobiçosos e avarentos a usar Deus em beneficio próprio. Verdadeiros profetas que dizem não ao evangelho da psicologia e sim ao aconselhamento bíblico, homens dizendo “chega” de humanismo, chega de mensagens de sabedoria humana! Basta de mensagens de autoajuda que na verdade só aliviam a coceira no ouvido das platéias mundanas, aliás, o que a bíblia chama de “transformação da alma” eles transformaram em “cura interior”, e assim transformaram o Deus bíblico em um resolvedor de problemas, transformaram os prédios religiosos em templos, púlpitos em altares, enfim, criaram um ambiente religioso que respondem à necessidade das massas supersticiosas e débeis. Estes transformaram a igreja em um sistema politizado que valoriza a fama e luxúria. Não há mais referencias ao discipulado, a levar a cruz, a fazer “A VONTADE DE DEUS”. Transformaram a dor e o sofrimento em maldição, não mais como instrumento de Deus para transformar-nos à imagem de Cristo, aliás, Jesus Cristo já deixou de ser o alvo das pregações há muito, muito tempo. Hoje só o que vemos são organizações humanas com poder, dinheiro e fama que usam as platéias para seu bel prazer, infelizmente esta multidão já fragilizada pelo sistema corrupto da política brasileira cai como ovelhas nas mãos destes lobos cruéis, ainda há uma multidão sendo facilmente adestradas e infantilizadas por homens gananciosos prometendo-lhes através de rituais algum tipo solução rápida (mágica) para os mais diversos problemas, e tudo isto em nome de Jesus!

Por outro lado há uma geração se levantando contra tudo isto, há uma geração de jovens, mulheres e até crianças carregando esta angústia em seus corações, o tempo de profetas calados na caverna acabou! O tempo de ficar em Jerusalém acabou! É hora de libertar pessoas presas na garras do diabo mas também presas nas garras dos corruptos religiosos! Chegou a hora de denunciar os hipócritas, chegou a hora de denunciar os príncipes! Chegou a hora de preparar o caminho do Senhor Jesus, já ouço o clamor de uma geração que grita:

Ora vem Senhor Jesus, venha o Seu Reino!

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Estatísticas alarmantes sobre o comportamento evangélico

Biblia "The Word"

RESILIENCIA - UMA QUALIDADE FUNDAMENTAL NA VIDA CRISTA